Write loud and clear about what hurts

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Se conseguisse descrever-me em poucas palavras não tinha criado um blog. Desde 2009 a escrever sobre pedaços aleatórios de vida e histórias mirabolantes. Para questões, sugestões ou dúvidas existenciais, ana_bmd@sapo.pt




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Maio
sábado, 30 de maio de 2015 || 3:26 da tarde

Um dos meses mais agridoces da minha vida. De finais e inícios, de nostalgia e alívio, de amores e ódios. Maio foi uma montanha russa de emoções. Tentei contrariar-me a mim mesma e viver apenas no momento. O presente, em Maio, foi melhor que o passado e o futuro. Levei as minhas amigas à loucura porque, na minha ânsia de capturar todos os momentos agradáveis e memoráveis destas últimas semanas, as obriguei a tirar centenas de fotografias.  Quero lembrar-me deste Maio durante muito tempo, porque foi um mês tão feliz...



(Hoje e amanhã vou terminar o mês da melhor maneira possível: com algumas das minhas pessoas favoritas)

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we accept the love we think we deserve
quinta-feira, 28 de maio de 2015 || 10:02 da tarde

Percebi - com alguma surpresa, confesso - que deixei de ter paciência para pessoas que não se esforçam por ser agradáveis. Há uns anos atrás era capaz de gostar do mistério, da arrogância e daquela pose de superioridade. Via nos modos reservados e altivos um certo charme. O problema é que a confiança e a altivez resvalam muito depressa para a rudeza. Eu própria sou reservada, não falo com toda a gente e demoro muito tempo a ganhar confiança com um estranho. Mas esforço-me sempre - sempre! - por ser agradável e simpática para as pessoas que me rodeiam. Às vezes não me apetece, mas caramba, devo esse respeito aos outros seres humanos que se cruzam comigo. Assim, percebi que algures nos últimos quatro anos deixei de estar disposta a lidar com aqueles que não têm a mesma preocupação. Nunca consegui bajular as típicas figuras de poder ou estabelecer dialogo com alguém sem partir da premissa que temos igual valor. Felizmente tive uns pais que sempre me deram imenso amor e me conseguiram transmitir confiança suficiente para eu não me sentir menos que ninguém. Há pessoas infinitamente mais bonitas, mais poderosas, mais inteligentes, mais engraçadas e mais interessantes que eu, mas ainda assim não acho que isso seja motivo para que se justifique que eu tratada de forma pouco simpática ou amável. Progressivamente e sem me aperceber, deixei de procurar estabelecer contacto com quem não tenta ser uma versão decente de si próprio junto a terceiros. Curiosamente, essas mesmas pessoas acharam estranho eu não ser tão simpática e prestável como o costume e passaram a andar atrás de mim e a fazer um esforço enorme por ser mais agradáveis. Claro que não mudei a minha atitude conscientemente e muito menos procurei obter tal reacção, fi-lo porque perdi mesmo a paciência para narizes empinados e arrogância. Gostava muito de ter e de ser melhor pessoa, mas não tenho e não sou e fora das minhas obrigações académicas/profissionais evito este tipo de pessoas. 


Dou-vos dois exemplos. Tinha uma colega que é daquelas pessoas que está permanente deprimida e aborrecida com a vida. Até aqui tudo bem, eu própria admito que muitas vezes a vida não é lá grande coisa e sou a maior defensora de que temos legitimidade de nos sentirmos tristes ou felizes até com as mais pequenas coisas. Durante dois anos convivi muito com ela, metia conversa, convidava-a para sair, preocupava-me em ajuda-la e em facilitar-lhe a vida, procurava temas e assuntos sobre os quais pudéssemos conversar. Uma panóplia de pequenos gestos e de investimentos na relação. E ela respondia-lhes com trombas, poucas conversas, recusas aos meus convites por falta de vontade ou porque todos os dias tinha que ir arrumar a casa e um sem fim de acções que, não sendo antipáticas, foram muito pouco agradáveis e simpáticas. Eventualmente desisti de me esforçar, perdi o interesse em conversar com uma pessoa assim e fui à minha vida. Não tenho jeito para relações unilaterais. Agora só me falta ter que arregaçar as calças e correr pelos corredores fora para ela não me vir aborrecer com conversas que eu já não quero ter - sim, é a tal! Paralelamente, há três semanas conheci uma pessoa que é o oposto. É super simpática e faz tudo para ser interessante e agradável. Já não me lembrava de como era bom sair com um estranho super educado, interessante e com quem conectamos imediatamente. Daqueles com quem não é preciso fazer grande esforço ou procurar temas porque a conversa não só flui sem problemas, como porque sentimos que há uma tentativa do Outro de ser agradável e boa companhia. Só quando conheci esta pessoa há três semanas é que me pus a pensar em como, de facto, cada vez aturo menos merdas snobs e eu como isso me deixa feliz comigo mesma. 

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coisas que a mim também nunca me aconteceram (versão os meus amigos são hardcore)
quarta-feira, 27 de maio de 2015 || 10:05 da manhã

Duas amigas convidaram-me para ir sair com elas na noite de passagem de ano. Infelizmente não pude ir e acabei por passar a noite a trabalhar no café da minha mãe e a ir para a cama às 12:00h, ver séries. Entretanto, parece que não perdi grande coisa, porque o espectáculos que elas foram ver foi cancelado e elas acabaram a dormir no meio do chão da sala de espectáculos. A certa altura, uma das minhas amigas conheceu um finlandês e passaram uma parte da noite a falar. Engraçaram um com o outro e, num dado momento, o rapaz (que era muito giro) parou a conversa e perguntou-lhe se a podia beijar. A minha amiga, que claramente não é a pessoa mais romântica do mundo, respondeu-lhe muito indignada: "Mas vocês lá na Finlândia têm o hábito de perguntar antes de beijar?!". O rapaz ficou muito envergonhado, claro, e lá lhe respondeu que realmente era a primeira vez que perguntava. No final acabaram por se beijar mesmo, mas desde que ela me contou isto que eu tenho que me impedir a mim própria de rir à gargalhada sempre que me lembro desta história em público. Se esta não é a melhor história que ouviram hoje não sei que tipo de histórias andam a ouvir.

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obviamente
domingo, 24 de maio de 2015 || 10:31 da tarde

Claro que escolhi a altura mais atarefado do semestre para me pôr a ver episódios de Suits de enfiada porque estou a morrer de saudades. Em que outra altura iria eu fazer uma coisa destas?

 

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dos detalhes
sábado, 23 de maio de 2015 || 4:00 da tarde

Ontem foi um dos melhores dias dos últimos três anos. Já não me lembrava de como era ter um dia integralmente preenchido com felicidade e despreocupação. 

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aquela vez em que eu fui mesmo muito madura e lidei com as coisas como pessoa adulta que sou (só que não)
sexta-feira, 22 de maio de 2015 || 9:53 da tarde

Tenho uma colega que quer ter uma conversa séria comigo sobre um tema que eu não quero, de todo, discutir. Sei que a certa altura vou ter que falar com ela, nem que seja apenas para evitar as perguntas que sei que ela me vai fazer ou para lhe dizer que não quero discutir o assunto de que ela quer falar. Talvez tenha que lhe dizer coisas que não quero e que sei que ela não vai querer ouvir. Resumindo e concluindo, quero muito evitar uma determinada conversa com uma determinada pessoa que não vai ser benéfica para nenhuma das duas. Sabendo que era uma questão de tempo até ela me apanhar e me fazer perguntas que me desencadeiam níveis de ansiedade muito elevados, fiz o que qualquer adulto responsável faria: passei o semestre inteiro a fugir e a esconder-me dela. Sim, a sério. Se via que saíamos do metro à mesma hora, punha-me a andar a passo muito apressado e a olhar apenas para a frente, se a via nos corredores da faculdade dava meia volta e ia por outro caminho antes que ela me visse. Se por acaso estivesse num sítio que não me permitisse meter por outro corredor, entrava numa das salas de aula ao acaso. Fui parar duas vezes a uma sala que não era a minha onde uma turma qualquer já esperava que o professor chegasse. Às vezes ia ter com a primeira pessoa conhecida que conseguisse encontrar, sabendo que ela não ia meter conversa comigo nessas circunstâncias. Apanhava-a de costas e esgueirava-me por entre a multidão. Até dentro da casa de banho me escondi. E um sem fim de técnicas de pessoa muito madura, portanto. O que me vale é que ela não é uma pessoa particularmente expansiva, daquelas que atravessa a faculdade só para nos ir cumprimentar ou que passa a vida a tentar combinar lanches e cafés. Esta semana aconteceu o inevitável. Estava no mesmo espaço que ela e não tinha saída. Apanhei-a de costas e passei, mas ela deve ter-me visto e veio a correr atrás de mim. Começou logo a puxar o tal assunto do qual eu não quero falar. Aliás, eu já a associo a níveis de ansiedade elevados e evito estar com ela. Claro que fui o mais apressada e evasiva possível. Até um ataque de tosse fingi para ocupar tempo de conversa. "Ai, este pólen e estas alergias". No final lá a consegui fintar, mas sei que ela vai voltar a puxar o assunto e, caramba, não posso fingir que não posso falar porque estou com um ataque de tosse se ela meter conversa no chat do facebook. As minhas técnicas resultaram um semestre inteiro, só precisava que resultasse durante mais duas semanas. 

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coisas que aposto que nunca vos aconteceram
quarta-feira, 20 de maio de 2015 || 9:45 da manhã

No fim de semana passado tive um Sábado complicado. Depois de um dia aborrecido e de um jantar ainda mais aborrecido, saí rumo à zona do bairro alto. Disse que ia a qualquer sítio fazer o que a minha companhia quisesse, desde que pudesse sentar-me e beber alguma coisa com álcool. Ênfase na parte de beber alguma coisa com álcool. Quase cheguei à zona dos bares. Quase. Acabei a noite num museu (sim, à meia noite em estada enfiada dentro de um museu) a contar a história de um santo português a um grupo de estrangeiros, a olhar para arte sacra e sem uma única pinga de álcool no sangue. Às vezes nem eu percebo que voltas são estas que a minha vida dá de repente. 

Untitled | via Tumblr

[Suse, acho que terias ficado orgulhosa de mim!]

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Os meus amigos são mais hardcore que os vossos
terça-feira, 19 de maio de 2015 || 9:59 da manhã

Tenho uma amiga que, em criança, tinha preguiça de se levantar para ir deitar os caroços das maçãs meias comidas para o lixo, por isso habituou-se a comer as maças inteiras. A parte assustadora é que hoje em dia continua a fazer isto, mesmo quando tem um caixote do lixo ao lado. Vocês não estão a perceber a quantidade de vezes que eu a vi pegar numa maçã e, passados dois minutos, a via de mãos a abanar. Sempre pensei que guardasse aquela parte central que ninguém come num saco, dentro da mala, para depois deitar fora. Até que um dia ela me diz, com a maior naturalidade do mundo, que come tudo, caroços incluídos. Claro que eventualmente tentei fazer o mesmo. E desisti à primeira trinca que dei naquela parte mais dura. Se isto não é hardcore não sei o que será.

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[private post]
segunda-feira, 18 de maio de 2015 || 10:20 da manhã

Há uns tempos uma amiga disse-me que eu era exactamente como a Donna e que, dentro de alguns anos, quem sabe eu não seria a sua Donna privada. Eu sorri e agradeci o enorme elogio. Cá para mim pensei que nunca seria a Donna de ninguém. Sei que ou chego a ser o Harvey ou vou morrer a tentar, nunca sobreviveria a uma vida de Donna sabendo que existe um Harvey na escala. Ou um Mike, vá. Digo isto com a plena consciência de que é infinitamente mais provável que morra a tentar. Sou realista, antes de tudo o resto. Mas, mesmo que nunca chegue a ser um Harvey, nunca me vai ser suficiente ou pacífico ser apenas uma Donna, porque por mais méritos que uma Donna tenha, gira sempre em torno dos méritos de um Harvey e isso eu nunca vou poder tolerar. 

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dos detalhes
domingo, 17 de maio de 2015 || 11:40 da manhã

Um inglês diz-me que tem a sensação que eu falo muito bem inglês. Estávamos a falar espanhol e nunca na nossa vida falámos em inglês. Às vezes nem eu percebo muito bem as voltas que a minha vida dá.


(Sim, eu sei, ninguém percebe porque é que um britânico e uma portuguesa que conseguem ambos falar português, inglês e espanhol acabam a falar na única das três línguas em que nenhum dos dois é nativo.)

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crónicas de um internamento [a última, por agora]
sábado, 16 de maio de 2015 || 11:10 da manhã

- "Ainda bem que a minha pena está quase a terminar, tenho que ir lá para fora roubar para os meus netos", disse-me o preso. Não sei se a brincar, se a falar a sério. As pessoas que se transformam num estereótipo fascinam-me e assustam-me ao mesmo tempo.

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crónicas de um internamento [não o meu!]
sexta-feira, 15 de maio de 2015 || 12:09 da tarde

No quarto do meu familiar estava um senhor que é filho da anestesista chefe daquele hospital. O homem é imensamente bajulado por todos os membros do staff. Tratam-no como um rei, apesar de ele não ligar nenhuma a ninguém e passar o dia meio a dormir. Os outros são tratados como lixo, obviamente. O meu familiar não, porque feliz ou infelizmente, nós sabemos como é que estas coisas se processam e estamos sempre lá de guarda e prontas para reclamar quando há qualquer injustiça ou problema, mas os pacientes que estão mais desacompanhados levam um tratamento de indiferença e insensibilidade que me faz doer o coração. Entre médicos, enfermeiros e auxiliares não há ninguém que lhes mande um sorriso, dê dois dedos de conversa ou pergunte se é preciso ajuda. À hora marcada despejam o stock de comprimidos e anotam a tensão e nem uma palavra se troca, como se o medo e a depressão não fossem dos factores que mais atrasam a recuperação dos pacientes e os fazem sofrer nos hospitais. Há dias em que saio do hospital com o coração pesado perante tanta aspereza e insensibilidade. Neste país - e em muitos outros, claro está - as coisas realmente funcionam ao contrário. 

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crónicas de um internamento
quinta-feira, 14 de maio de 2015 || 10:32 da manhã

Cada vez que tenho um novo contacto com hospitais penso, esperançosamente, que finalmente vou encontrar uma equipa de profissionais de saúde que não seja composta por bestas insensíveis ao sofrimento dos pacientes e das famílias. Fica a nota que ainda não foi desta vez que encontrei profissionais que soubessem tratar as pessoas com respeito e sensibilidade. 


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crónicas de um internamento
quarta-feira, 13 de maio de 2015 || 10:38 da manhã

Nem vos conto a quantidade de gargalhadas que já sufoquei hoje. Durante a hora da visita, o paciente que passa a vida a sujar-se com cocó chamou o senhor da cama em frente e, como está acamado, pediu-lhe que lhe deitasse um papel com qualquer coisa lá dentro para o lixo. O senhor disse que sim, sem problemas nenhuns. Quando estava a deitar o papel fora, lembrou-se que não era hora de refeição e que como o outro estava acamado não podia ter ido buscar nada a lado nenhum e perguntou-lhe o que é que estava dentro do papel. O outro senhor diz-lhe de forma muito educada e decidida:
- São fezes, senhor Artur. 



Esqueci-me de mencionar antes, mas é importante frisar que o senhor que estava a deitar o papel para o lixo é o tiozão betinho de que vos tinha falado num dos últimos posts. Ao perceber no que é que estava a tocar, ficou completamente colérico e pôs-se a ralhar e a bufar com o outro. Ficou mesmo furibundo. A minha mãe foi lá para acalmar os ânimos, antes que ele se lembrasse de mandar o outro da cama abaixo ou fazer qualquer coisa menos prudente. Enquanto a minha mãe o ajudava a lavar as mãos e dizia que o trabalho já estava feito e não valia a pena zangar-se mais, eu o preso olhávamos um para o outro e rebolávamos a rir com a cena que se gerou ali. Eu bem vos digo que eu e os delinquentes nos damos bem! (Agora sem brincadeiros, juro-vos que o preso é o homem mais pacífico e educado daquela enfermaria. E é, claro, o meu preferido).

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crónicas de um internamento
terça-feira, 12 de maio de 2015 || 10:09 da manhã

Dos cinco doentes que estão naquele quarto com a minha pessoa, não vos sei dizer qual é o mais normal. Um deles é completamente louco, mas extremamente educado. Todos os dias faz necessidades na fralda e consegue besuntar-se todo, ao ponto de chegar a ter porcaria nas mãos, no nariz e no chão à volta da sua cama. Passamos a vida a ter que chamar as auxiliares para o ajudarem. Outro também é meio louco. Tem períodos de completa normalidade, mas de repente tem um episódio qualquer de loucura e faz as coisas mais estranhas. Desde tentar fazer o pino em cima da cama a sair a correr pelos corredores da enfermaria descalço. Pelo menos esse não aborrece ninguém. O da cama da janela é um tiozão, super betinho e educado que, coitado, deve ver-se e desejar-se no meio de tanto maluco. Acho que é a única pessoa normal daquele quarto, para vos dizer a verdade. Há um outro que passa o dia a dormir, ou num estado de semi-transe e que, de um momento para o outro, acorda e põe-se a gritar e a gemer. Quando as enfermeiras vão ter com ele para ver o que se passa, ele cala-se e diz que não é nada. Daí uma ou duas horas repete-se o processo. O paciente que está em frente à cama da minha pessoa é o meu preferido. Está preso, pelo que estão sempre dois ou três guardas à porta do quarto. Há dois dias atrás zangou-se com o doente que passa a vida a gemer, por ele ter gritado durante a noite e o ter acordado umas quatro ou cinco vezes com ais e uis que cessavam sempre que o enfermeiro ia lá saber como é que podiam ajudar o senhor. Não sei grande coisa sobre o preso, excepto que é extremamente educado, está a cumprir dois anos e meio e que é amante de uma senhora que está casada com outro homem. Quando ela chega para o visitar as demonstrações de amor deles são extremamente apaixonadas. Os polícias passam a vida a falar com ele e a comentar as notícias do jornal e, de vez em quando, perguntam-lhe se se podem ausentar (ao que ele responde afirmativamente, claro!) e vêm para a porta do hospital namorar cada um com a sua namorada. É uma cena digna de se ver, dois polícias pelos cantos a enfardar bolos ou aos beijos e abraços e o preso lá em cima, impávido e sereno a ler o jornal. Nem vos passa pela cabeça as gargalhadas que eu dou à conta das situações que vejo naquela enfermaria.

 

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crónicas de um internamento [não o meu!]
segunda-feira, 11 de maio de 2015 || 9:51 da manhã

Sou daquelas pessoas chatas que não vai a consultas nem faz exames nenhuns de rotina. Se me sinto mal ou tenho um problema específico para resolver, marco uma consulta de especialidade ou vou às urgências, mas caso contrário, médicos nem vê-los. Passo anos sem ir ao médico e, muitas das vezes, quando lá vou, saio mais maltratada do que quando entrei. Aos 2 anos estive internada durante três semanas, foi a única vez. Aos 5, com o cancro do meu pai, não passei horas infinitas nos hospitais porque a minha família fez um trabalho brilhante e conseguiu esconder-me o pior da dor, mas como a minha mãe e a minha tia viviam naquela rotina, acabei por viver também a rotina de hospital. Aos 12, como o padre da nossa paróquia celebrava missas como quem celebra funerais, a minha família passou a ir à missa à capelania de um hospital. Dois, na verdade. Foram anos de hospital todas as semanas. Aos 14, a minha mãe e a minha tia tornaram-se voluntárias e passaram a fazer visitas aos doentes que não têm famílias disponíveis. Foram mais uns quantos fins de tarde a passear por corredores e claustros e uns domingos em compasso de espera pelos bares e serviços de internamento. Entre as missas que saltava e o tempo de reuniões e eventos de voluntários que passei escondida pelos cantos, passei por quase todos os hospitais do centro hospitalar de Lisboa. Há dois anos um dos nossos melhores clientes foi diagnosticado com cancro e lá fui eu outra vez, mais umas quantas visitas. Os corredores de hospital e os serviços de internamento são lugares muito peculiares. São todos iguais e todos ridiculamente diferentes, com os seus cantos e recantos próprios, com mil histórias para contar. No ano passado a minha tia foi internada para fazer uma pequena cirurgia. Foi uma semana caótica na qual me desdobrei entre estudar para as frequências finais, em Junho e o horário das visitas - a minha tia é a minha vida, portanto como podem imaginar, não descolava do lado da cama dela desde que as visitas abriam até depois do horário de fecho. Este mes, tenho novamente um familiar internado. Têm sido dias altamente produtivos, quer acreditem quer não. Acordo, estudo e faço trabalhos, almoço à pressa ou levo o comer numa caixa, vou à faculdade, corro para as visitas, chego a casa as 21h, estudo mais umas quantas horas e ainda tenho tempo para ler o D. Quixote que nem uma doida e fazer aulas online de italino. Estou a conhecer os cantos e recantos de um hospital que quase não conhecia e tenho mil histórias para vos contar porque, por muita sorte ou por muito azar, o meu familiar está numa enfermaria cheia de gente doida e com histórias muuuuuito particulares. Stay tuned. 

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to sofá ou not to sofá, eis a questão
sábado, 9 de maio de 2015 || 3:55 da tarde

A minha mãe e a minha tia foram a uma loja de móveis, viram um sofá de que gostavam e perguntaram quais eram as medidas. O funcionário, que não levou a sério duas mulheres sozinhas, disse-lhes uma medida ao acaso, só para as calar. Não estou a brincar, o funcionário não achou que duas mulheres tomassem a decisão de gastar dinheiro num sofá sem consultar primeiro um homem, mas o machismo disfarçado nos aspectos mais normais do quotidiano não é o tema deste post. Vieram para casa, mediram a parede à qual queriam encostar o sofá e ficaram entusiasmadas quando perceberam que tinha a medida certa. Encomendaram o sofá e disseram-lhes que daí a 20 dias o entregariam cá em casa. Passaram vinte dias e nada. Vinte e dois dias e nada. A minha mãe ligou para lá e eles responderam "vamos agora tratar disso, daqui a dois dias está aí". Ou seja, lixaram-se para a encomenda e só decidiram ir tratar disso quando passou o prazo e o cliente ligou a reclamar. Finalmente vieram entregar o sofá cá a casa. Qual não é o meu espanto quando chego a casa e vejo que o sofá não só é 40cm maior do que a medida fornecida pela loja, como está manchado. Fui à loja perguntar se os funcionários sabiam tirar medidas e avisar que para a próxima vez, se quisessem enganar os clientes e vender-lhes o sofá que estava exposto em vez de fabricarem um novo, convinha confirmar que não estava manchado. O dono da loja, vendo que eu não estava para brincadeiras, disse-lhe que iam tirar o sofá e aconselhou-me a trocar por um outro sofá disponível na loja, porque aquele que tínhamos escolhido não era fabricado nas medidas que pretendíamos. Ou, melhor ainda, a desmontar um dos braços do sofá para ele caber. Disse-lhe logo que se quisesse um sofá manco e com ar de velho tinha ficado com o antigo, muito obrigada. Irritei-me a sério e ele, ao ver que eu já falava de devoluções, indemnizações e coisas piores lá disse que podia pedir a um outro fornecedor para lho fabricar por medida, mas que isso ia custar mais 200 euros. Claro que o mandei enfiar as almofadas todas do sofá num sítio menos próprio. Ainda assim, a minha mãe quis ficar com o sofá e lá ficou combinado que pagávamos mais 80 euros de transporte e ficávamos com o sofá novo feito com as medidas certas que os incompetentes dos empregados não souberam fornecer devidamente. Sou-vos honesta, por minha vontade tinha ido comprar outro sofá a outro sítio e ainda passava discretamente pela loja com uns tubinhos de corante para despejar em cima de um ou dois artigos em exposição para ver se percebiam que é muito chato querer burlar os clientes, mas a minha mãe é claramente melhor pessoa e tem instintos menos delinquentes que os meus.  Disseram que demorava mais 15 dias. Passaram quinze dias. Passaram dezasseis. A minha mãe, que claramente vai para santa, ligou para lá. "Vamos já tratar isso, são só mais dois dias". Passados dois dias lá chegam os distribuidores. Pedem-me para medir a parede e eu recuso-me e digo-lhes que já tinha medido a parede correctamente e que tinha a certeza que ela não tinha encolhido no último mês. Aconselhei-os a medirem-na eles, uma vez que parecia que precisavam de aperfeiçoar a técnica. Quando quero sei ser muito cabra, eu sei. Montaram o sofá e eu ainda estou tão cansada desta dança das cadeiras que, passados dois dias, continuo a revirar os olhos sempre que passo pelo maldito. 

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constatações
quinta-feira, 7 de maio de 2015 || 11:04 da tarde

Há dois tipos de amor: aquele que se despedaça quando a outra pessoa sofre e aquele que nos despedaça quando a outra pessoa sofre. São ambos válidos e necessários, mas no final, aquele que nos enche o coração é o segundo. 



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Crónicas de um café
quarta-feira, 6 de maio de 2015 || 10:14 da tarde

No café, temos uma cliente com um filho de quatro anos que tem claros problemas de expressão. Durante meses suspeitei que ele pudesse ter autismo, mas os adultos que comunicam com ele - ou seja, toda a gente que frequenta o café, pais, educadores e médicos - diziam continuamente que ele era muito lindo, muito inteligente, muito fofinho e muito tudo o que as pessoas que gostam de crianças acham que todas as crianças são. Eu não gosto do miúdo, ele teve o azar de ter pais que não lhe sabem dar educação e incutir respeito pelos outros e eu tive a sorte de ter uma mãe que sempre me ensinou a não aceitar que me faltassem ao respeito e a torcer o nariz a pessoas mal-educadas. Portanto ele aborrece os clientes que gostam muito dele e eu fico na minha e não me derreto com o miúdo. O problema é que, desde muito cedo, era notório que o rapaz tinha problemas na fala. A isto juntou-se um desligamento emocional e tendência para ignorar as pessoas que iam mais longe do que o normal em crianças desta idade. Durante meses olhei para o menino e percebia que alguma coisa estava mal. Primeiro suspeitei de autismo, mas depois a mãe dele mencionou casualmente que ele tinha tido muitas otites no primeiro ano de vida e eu lembrei-me de ter lido, na diagonal, um artigo científico que mostrava que crianças que tenham otites durante os 2 primeiros anos de vida, tendem a ter um desenvolvimento linguístico atípico e muito mais lento, precisando geralmente de terapia da fala. O problema é que os pais são tão babados e insistiam tanto que o rebento deles tinha capacidades cognitivas acima da média que iam levar a mal se eu lhes dissesse que o filho provavelmente precisava de terapia da fala e de ir a uma consulta com um otorrino. Portanto deixei-me estar calada. O rapaz ia e vinha das consultas do médico e nada. As educadoras dele nunca reportaram aos pais que o rapaz não apresentava uma aquisição linguística típica e eu, todas as semanas, estava atrás do balcão e via-o ter dificuldades sérias na produção e compreensão. Disse à minha mãe e ela disse-me que era impossível, que o miúdo era inteligente. Expliquei-lhe que o desenvolvimento cognitivo não tem que estar forçosamente ligado ao desenvolvimento linguístico. Disse-me que eu estava a inventar. Ainda perguntei à mãe dele se a médica dele não falava do desenvolvimento da fala, mas ela disse que não e que o filho tinha sempre excelentes resultados em todos os testes. Deixei a dica de que às vezes é preciso chamar a atenção dos médicos se houver algum tipo de problema, porque o tempo de consulta nem sempre é suficiente para que eles se apercebam de todos os problemas que a criança possa ter. Não insisti, afinal não sou médica, não tenho formação na área da saúde e não tenho que meter o nariz na vida dos outros. Isto foi há um ano. Na semana passada a mãe dele chegou ao café muito triste e preocupada. Disse que tinha ido à médica de família e ela lhe tinha dito que ele tinha um atraso no desenvolvimento linguístico porque tinha tido problemas de ouvidos durante o primeiro ano de vida, que lhe condicionaram o desenvolvimento fonológico e, consequentemente, todo o desenvolvimento linguístico. Está toda a gente muito espantada e chocada, inclusivé as pessoas com quem tentei falar a respeito disto. Porra, eu mereço?! Este tipo de perturbações são fáceis de resolver se forem encontradas cedo, mas das mil e uma pessoas que adoram a criança, nenhuma foi capaz de olhar com olhos de ver e perceber que o miúdo não falava como era suposto. Às vezes saio daquele café cansada. 




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dos dias
terça-feira, 5 de maio de 2015 || 11:10 da tarde

Hoje estava em dia não. Saí de casa e fui para a faculdade meia contrariada, sabendo à partida que não ia ter um dia muito produtivo. Depois conheci uma pessoa fantástica e, assim de repente, o meu dia horrível transformou-se num dia agradável. 

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parvoíces
|| 10:08 da tarde

Gosto de fazer as coisas bem. Se possível, logo à primeira e sem falhar. Na impossibilidade de conseguir sem falhar primeiro, deixem-me falhar sozinha. Ensinem-me, mas não me controlem os movimentos. Qualquer actividade que envolva um treinador/professor/instrutor a olhar para mim e a avaliar os meus movimentos ao centímetro dá comigo em doida. Sou capaz de passar uma hora sozinha e fazer TUDO bem, mas no momento em que vem um abutre voar à minha volta, avaliar o meu progresso e dar-me dicas, pareço um castelo de cartas a desmoronar. Escusado será dizer que tirar a carta vai ser um pesadelo, só imaginar estar fechada dentro de um carro com alguém a corrigir tudo aquilo que faço e a ver-me falhar constantemente é coisa para arrumar com os meus nervos. Igualmente desnecessário é frisar que, em educação física, sempre que sentia que o meu professor estava a olhar para mim, arranjava maneira de fazer tudo mal, o que o levava a dar-me mais atenção, que por sua vez me enervava ainda mais. Tenho um problema com falhar, mas mais do que isso, tenho um problema com deixar que os outros me vejam falhar. Ainda hoje aconteceu uma situação deste género: fiz tudo bem e à primeira, mas nos últimos dois minutos bastou alguém estar a olhar para mim e a corrigir-me para eu não acertar uma. 

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dos pormenores
segunda-feira, 4 de maio de 2015 || 9:16 da tarde

O nível de nervos que eu sinto em relação a uma frequência, apresentação ou entrega de trabalho mede-se pelos dias de antecedência com que acabo de me preparar para o evento. Quanto mais nervosa me sinto em relação a algo, com mais antecedência e afinco me preparo. Claro que acontecem coisas como ter os trabalhos prontos duas semanas antes da entrega ou ter acabado de estudar para uma frequência três ou quatro dias antes da mesma. Depois é ver-me a olhar para os meus colegas no dia anterior à avaliação, muito confusa e sem perceber porque é que eles estão tão nervosos e atarefados. Quando percebo rio-me de mim própria. É, sou essa pessoa. 

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sábado, 2 de maio de 2015 || 2:45 da tarde

Dou por mim a fugir de palavras e expressões banais. Dou por mim a evitar filmes sobre um tema muito específico que pode ter ramificações muito gerais. Dou por mim a fingir que o telemóvel está a tocar sempre que me fazem aquela pergunta. Dou por mim a encolher-me sempre que oiço notícias sobre o tema e a esconder-me no canto mais longínquo da plataforma quando oiço estranhos a comentá-lo enquanto esperam o metro. O meu coração dispara sempre que pego no telefone para ligar para aquele número, mesmo quando sei que a oeste não há nada de novo. Tornei-me mestre em contorcionismo de tanta ginástica que fiz para evitar todas as conversas e referências àquilo que me faz ficar acordada à noite. Tornei-me malabarista de tanto atirar ao ar banalidades e passar histórias e problemas comuns de vidas alheias de uma mão para a outra. Tornei-me trapezista assim que aprendi a agarrar-me a esses fios de normalidade para não pensar em nada. Fiz desvios atrás de desvios, até estes se terem tornado o meu caminho principal, o único que posso ir percorrendo sem colapsar ao som de perguntas, referências e comentários que me ferem de rajada como se de tiros de metralhadora se tratasse. Pensei, durante meses, que me tinha tornado numa pessoa completamente diferente de mim mesma, que nunca mais me iria reconhecer, mas agora entendo que talvez não me reconheça porque estou a deixar de ser eu própria para me transformar na pessoa que sempre sonhei ser - mesmo quando não o sabia - e esse pensamento ajuda-me a respirar um bocadinho mais fundo. 

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Abril
sexta-feira, 1 de maio de 2015 || 10:57 da tarde

Abril não foi um mês particularmente interessante. Só vi um filme, tive pouco tempo para ver séries e li três livros - vantagens de ter comprado um smartphone e pode andar com mil e um ebooks para ler nos transportes. Foi um mês pouco interessante, mas muito atarefado. Entre o tempo passado na faculdade, a trabalhar no café ou a estudar em casa, bem como a resolver outros assuntos e compromissos, a maioria dos meus dias começou de manhã e só terminou por volta das onze da noite. Curiosamente não me senti cansada nem apressada, fiz tudo sem correrias ou stresses. Claro que nem tudo foi bom e que aconteceram uma ou duas coisas menos positivas, mas nem perante isso eu me enervei muito. De resto, temo não ter novidades sumarentas ou grandes conquistas para vos contar.

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