TomislavQuarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012 / 10:05 PM Há relações que já acabaram antes mesmo de começar. E com isto quero dizer que conheci o Tomislav no Verão quente e abafado dos meus treze anos, na Bosnia. O Tomislav tinha 19/20 anos e era o filho mais velho dos donos da pensão onde eu fiquei instalada três anos seguidos (e da qual tenho apenas as melhores recordações). Estudava direito, ajudava os pais na pensão durante as férias e, ao pôr-do-sol, costumava encontra-lo com os amigos a jogar futebol sem t-shirt. Melhor, era fã do Cristiano Ronaldo. O organizador do grupo e as pessoas mais sociáveis falavam com ele quase todos os dias. Nós só nos conhecemos "oficialmente" quando ele me deu com uma taça cheia de salada na cabeça e me pediu desculpa. A partir desse dia colovava as travessas com a comida mais próximas de mim do que dos outros, como forma de pedir desculpa. E durante um ano pouco mais falamos.
No ano seguinte voltei. Fomos "formalmente" apresentados, o que foi bastante positivo porque não tinha vontade nenhuma de levar com um jarro de água na cabeça para voltarmos a ter tema de conversa. Durante esse ano conversámos mais do que no ano anterior. Sobre o Cristiano Ronaldo, sobre o curso dele, sobre Portugal, sobre as nossas viagens e sobre a Bosnia. Ele até veio com o nosso grupo visitar uns lagos e umas cidadezinhas nas redondezas. Arranjaram lugar para ele ao meu lado e até conceberam um plano para nos pôr a jantar ao pôr-do-sol numa esplanada de Dubrovnick. Eu não estava minimamente interessada nele. Ele não estava minimamente interessado em mim. Durante esse ano fingimos que não eramos envolvidos por uma atmosfera constrangedora devido aos risinhos das outras pessoas e às piadas que incluíam sempre as palavras "Summer Love". Depois do jantarzinho e do passeio pelo porto de Dubrovnick voltamos ao autocarro, cada um mais cansado do que o outro. Eu porque tinha acordado às oito da manhã e tinha passado o dia de um lado para o outro. Ele porquê tinha tido uma festa até às cinco da manhã do dia anterior. A partir desse dia, em Dubrovnick, falámos o menos possível para evitar comentários e boquinhas, porque não nos sentíamos confortáveis a falar um com o outro enquanto as pessoas à nossa volta forçassem a nossa convivência e olhassem para as nossas breves conversas como declarações de amor. Acabamos por deixar de falar completamente e por nos evitarmos mutuamente, o que, como podem imaginar, era complicado, já que eu tinha que almoçar e jantar todos os dias e ele tinha que servir as respectivas refeições. Eu só queria conversar sobre o Cristiano Ronaldo. E sobre as viagens dele. E sobre a Bosnia. Ele só queria falar com uma estrangeira...mais nova do que as irmãs dele.
No terceiro ano em que voltámos à Bosnia compraram uma camisola do Cristiano Ronaldo e obrigaram-me a ir lá oferece-la, debaixo de um festival de palmas e de risinhos. A partir daí deixamos de conseguir conversar, tornou-se completamente impossível para dois estranhos aturarem as porcarias inconvenientes das pessoas que os rodeavam. Nessa ano, chegaram ao cumulo de o levar para o meu quarto às nove da manhã (eu estava de pijama...a dormir) e de forçarem uma conversinha em que nos "reapresentavam". Fiz a maior figura de usa da minha vida porque ainda estava meia a dormir e estar de pijama (calções curtos e t-shirt) e despenteada em frente a um gajo seis anos mais velho não ajuda nada a descontraír. Imagino que estar no quarto com uma pita seis anos mais nova também não seja nada agradável. A partir desse momento em que fomos obrigados, pela boa educação e pela pena que sentiamos um pelo outro e por nós próprios, a comunicar um com o outro voltámos a conversar com alguma frequência. Nunca mais dissemos nada de jeito um ao outro. Nem sobre o Cristiano Ronaldo nem sobre nada.
Hoje, eu podia ter o mail ou o facebook do Tomislav. Podiamos ser "amigos". Aqueles amigos que se conheceram numa viagem e que partilham um carinho especial porque nunca tiveram tempo para descobrir defeitos uns nos outros. Amigos que quando se viam (e eu ainda vou à Bosnia algumas vezes) se cumprimentavam e falavam sobre o Cristiano Ronaldo. Ou sobre o curso de direito que já está mais do que tirado. Mas isso não aconteceu porque um grupo de adultos achou que era muito engraçado fazer um arranjinho entre dois adolescentes. E eu tenho pena, porque ele era um rapaz simpático. E eu era uma rapariga simpática. E não queríamos absolutamente nada um do outro...nem nos passava pela cabeça de tão ridículo que era. E bolas, o rapaz gosta do Cristiano Ronaldo, uma oportunidade para falar com uma pessoa assim não se desperdíça.